Cerca de 80% do plástico encontrado nos oceanos tem origem em terra firme. Quando esses materiais se quebram em fragmentos microscópicos, tornam-se um desafio complexo, conseguindo passar intactos por estações tradicionais de tratamento de esgoto. Para mapear essa contaminação invisível, cientistas da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) criaram um modelo computacional inovador que simula a rota desses poluentes no litoral do Rio de Janeiro.
O papel da densidade na dispersão marinha
Divulgada na Revista Brasileira de Recursos Hídricos, a pesquisa demonstra que a densidade da partícula é o fator determinante para o seu destino final. O sistema desenvolvido integra informações sobre correntes, marés, ventos e locais de despejo de efluentes para prever o comportamento dos resíduos na costa fluminense.
Comportamento de materiais leves e pesados
Conforme o levantamento, os plásticos mais leves flutuam e são empurrados pelos ventos, percorrendo grandes distâncias até atingir zonas distantes da costa, a exemplo das Ilhas Cagarras. Em contrapartida, os fragmentos densos afundam rapidamente, acumulando-se no leito do mar bem próximo aos pontos de lançamento de esgoto e drenagem urbana. Já as partículas de peso intermediário tendem a ficar presas na circulação de baías fechadas, como a de Sepetiba.
Impactos na fauna e o ciclo das ressacas
Esse cenário de contaminação coloca em risco a vida silvestre. Organismos que vivem no fundo do oceano, a exemplo de crustáceos, acabam engolindo os resíduos acumulados na areia, o que introduz o material diretamente na base da cadeia alimentar marinha.
Além disso, o fundo do mar não funciona como um depósito definitivo. Durante eventos climáticos severos, como ressacas e a chegada de frentes frias, a força das ondas agita o sedimento e recoloca os microplásticos pesados em circulação na coluna d’água, espalhando-os novamente pelo oceano.
Para os autores do estudo, a persistência desse poluente exige mudanças urgentes. Rodrigo Amado Garcia Silva, pesquisador da UFF, aponta que o setor industrial precisará reformular a fabricação de itens que liberam essas partículas no dia a dia, como cosméticos e vestimentas, ou as estações de tratamento deverão adotar tecnologias avançadas. Paralelamente, o poder público precisa intensificar barreiras ecológicas e ampliar a coleta de resíduos maiores para evitar que cheguem aos rios e praias.








